Quando a mesa começa a ensinar
Por Ligorio Ricamato
Há palavras que entram na vida da Igreja de mansinho. Primeiro aparecem numa conferência. Depois numa comissão. Em seguida ganham um logotipo, um secretário, um documento de trabalho e, quando a gente percebe, já têm calendário próprio.
A sinodalidade parece ter seguido esse itinerário com notável eficiência administrativa.
Brad Miner, em artigo publicado no The Catholic Thing em 24 de agosto de 2026, chamou atenção para o problema pelo lado mais grave: o risco de um mecanismo participativo e permanente começar a funcionar como fonte concorrente de autoridade diante do depositum fidei. O argumento merece exame sério. Mas há também um aspecto que, por sua própria natureza, pede a modesta contribuição da crônica.
Porque a coisa, vista de perto, tem seu lado de repartição pública.
A Igreja sempre teve concílios, sínodos, capítulos, consistórios e reuniões de toda espécie. Não faltou papelada na história da Cristandade. Santo Tomás, aliás, provavelmente sobreviveria a uma reunião de três horas sem café. O problema começa quando a reunião deixa de ser instrumento e passa a adquirir personalidade jurídica, espiritual e quase meteorológica.
Já não se reúne para decidir alguma coisa. Reúne-se para caminhar.
E caminha-se sentado.
Há mesas redondas, círculos de escuta, grupos de discernimento, sínteses, sínteses das sínteses, devolutivas, relatórios de convergências, relatórios de divergências e, finalmente, um documento que informa que o processo continua.
Isto é importante. Se o processo terminasse, alguém poderia suspeitar que havia um destino.
A expressão preferida é “caminhar juntos”. É bonita. Serve para peregrinação, excursão de colégio e evacuação organizada de prédio. Como definição eclesiológica, porém, talvez precise de alguns acessórios. Caminhar para onde? Guiados por quem? Em torno de quê? Com qual critério para saber se a estrada virou trilha, atalho ou estacionamento?
A Igreja antiga tinha certa mania de substantivos inconvenientes: verdade, heresia, dogma, sacramento, pecado, graça. Eram palavras com quinas. Tinham o desagradável hábito de significar alguma coisa.
A linguagem sinodal prefere palavras mais acolchoadas. Escuta. Processo. Inclusão. Discernimento. Experiência. Consenso. Ninguém se machuca nelas. O máximo que pode acontecer é a pessoa sair sem saber exatamente o que foi decidido, o que, em certos ambientes, já é considerado uma forma superior de comunhão.
A Constituição Apostólica Episcopalis communio, de 2018, introduziu uma novidade relevante: se expressamente aprovado pelo Romano Pontífice, o documento final de uma assembleia sinodal pode participar do Magistério ordinário do Sucessor de Pedro. Em 2024, Francisco fez exatamente isso com o documento final da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, declarando-o parte do Magistério ordinário, embora não estritamente normativo.
Ou seja: a mesa redonda continua sendo mesa redonda, mas agora é prudente não derramar café sobre as atas.
Convém registrar uma coisa para não ofender o bom senso: consultar não é pecado. Ouvir também não. Bispos podem conversar com padres, padres com leigos, leigos entre si e até, em casos extremos, uma comissão pode concluir alguma coisa útil. A tradição católica nunca proibiu prudência, conselho ou deliberação.
O que Miner observa é outra coisa: quando o método deixa de ser apenas método e passa a se apresentar como forma permanente de constituição da própria Igreja, surge a pergunta que toda boa burocracia prefere adiar para a próxima reunião: qual é o limite?
Porque existe uma diferença entre ouvir a Igreja e redefinir a Igreja a partir daquilo que se ouviu na última rodada.
O depositum fidei tem uma característica pouco sinodal: ele não pede voto.
Os Apóstolos não distribuíram cédulas em Pentecostes. São Paulo não abriu consulta pública sobre a Ressurreição. O Concílio de Niceia não submeteu a divindade de Cristo a uma pesquisa de satisfação. A Igreja discerne muitas coisas ao longo da história, mas discerne a partir de algo recebido, não a partir de uma página em branco colocada no centro da sala.
É aí que a imagem da caminhada fica curiosa. Uma peregrinação católica tradicional possui um destino. Santiago. Roma. Jerusalém. Mesmo quem manca sabe para onde vai. A sinodalidade, quando descrita apenas como processo permanente, corre o risco de se parecer com uma peregrinação cujo grande carisma consiste em continuar andando para que ninguém tenha a imprudência de chegar.
Talvez por isso os documentos usem tanto a palavra “processo”. Processo não termina mal; apenas entra em nova fase.
Se houver dificuldade, cria-se grupo de trabalho.
Se o grupo de trabalho divergir, cria-se instância de escuta.
Se a instância de escuta não resolver, reconhece-se a riqueza da tensão.
Se a tensão persistir, ela passa a ser chamada de fecunda.
E se nada disso funcionar, sempre resta uma assembleia continental.
A Igreja Católica, porém, possui uma excentricidade institucional de dois mil anos: afirma que recebeu alguma coisa antes de começar a conversar. Essa coisa tem nome, conteúdo, memória, fórmulas, sacramentos, mandamentos e mártires. Pode ser aprofundada, explicitada, defendida e ensinada. Não pode ser substituída por um clima de reunião.
O risco, portanto, não está em haver cadeiras em círculo. Está em esquecer por que elas foram colocadas ali.
Uma mesa pode servir à Igreja.
O problema começa quando a mesa pede cátedra.
Fontes
Brad Miner, “Synodality Will Kill Catholicism”, The Catholic Thing, 24 de agosto de 2026.
Constituição Apostólica Episcopalis communio, art. 18, §1, 15 de setembro de 2018.
Nota do Papa Francisco sobre o Documento Final da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, 25 de novembro de 2024.


