Pular para o conteúdo
FIDESTRADITIOVERITAS
“Omnia ad maiorem
Dei gloriam.”
Tecnologia editorial com supervisão humana.  Como usamos IA
Críticas

Ad Petri Sedem, mas a Missa não

Teresia Ludibunda examina a reversão simbólica entre 2025 e 2026: a peregrinação continua ad Petri sedem, mas a Missa pontifical deixa novamente São Pedro.
Ilustração editorial da Peregrinatio 2026: a procissão deixa São Pedro e segue por Roma até Santa Maria Maior para a Missa pontifical.
Ad Petri Sedem: em 2026, a peregrinação chega a São Pedro, mas a Missa segue para Santa Maria Maior. — Scriptorium Fidei — ilustração editorial

Depois de restaurar em 2025 a Missa pontifical no Altar da Cátedra de São Pedro, o programa de 2026 leva os peregrinos ao túmulo do Apóstolo — e a celebração a Santa Maria Maior. O problema não é a basílica nem o bispo. É o recado.

Por Teresia Ludibunda

Roma acaba de descobrir uma modalidade litúrgica bastante moderna: a peregrinação chega a São Pedro, mas a Missa continua viagem.

O programa da 15ª Peregrinatio ad Petri Sedem, marcada para 23 a 25 de outubro de 2026, prevê que os peregrinos rezem o terço, caminhem até a Basílica de São Pedro, passem pelos controles, entrem na basílica e façam ali um momento de oração. Às 15 horas, porém, a Missa pontifical será celebrada no altar-mor de Santa Maria Maior por Dom Athanasius Schneider.

Não é exatamente um detalhe de rodapé. O nome da peregrinação é Ad Petri Sedem. A sede de Pedro permanece no itinerário; o altar, não.

Convém começar pela honestidade, porque a crítica perde força quando precisa falsificar a história. Santa Maria Maior não é um salão paroquial de periferia. É uma das quatro basílicas papais de Roma, uma das grandes igrejas da Cristandade, ligada à Salus Populi Romani e agora também ao túmulo do Papa Francisco. E Dom Athanasius Schneider não é um prêmio de consolação episcopal: há muitos anos tornou-se uma das vozes mais reconhecíveis em defesa da liturgia tradicional.

Portanto, ninguém está sendo mandado para um porão e ninguém recebeu um celebrante de segunda categoria.

É justamente por isso que o problema pode ser visto com nitidez. Não está na dignidade do destino. Está na alteração do sinal.

O próprio site oficial da peregrinação explica ao visitante, em sua apresentação histórica, que o sábado normalmente culmina com uma Missa pontifical solene na Basílica de São Pedro. Logo abaixo, o programa de 2026 informa que não: em São Pedro haverá oração; a Missa será em Santa Maria Maior. É uma página admiravelmente romana. Primeiro explica a tradição. Depois anuncia a exceção. E deixa que o leitor faça sozinho a teologia da agenda.

A mudança pesa mais porque vem imediatamente depois de 2025.

Naquele ano, sob Leão XIV, a Missa tradicional regressou ao Altar da Cátedra de São Pedro após três peregrinações — 2022, 2023 e 2024 — em que os participantes puderam entrar na basílica, mas não celebrar ali a Missa principal. O retorno de 2025 foi celebrado pelo cardeal Raymond Leo Burke. O próprio Burke descreveu aquela Missa, no sermão, como o ponto culminante da Peregrinatio. Os organizadores agradeceram publicamente ao Papa pela autorização e recordaram também a participação do cardeal Matteo Zuppi nas Vésperas da véspera.

Parecia uma normalização.

Durou um ano.

Aqui também é preciso evitar um argumento fácil. Não é verdade que um cardeal tenha presidido a peregrinação em todas as edições, nem sequer na maioria delas. A relação histórica publicada pelos próprios organizadores registra cardeais em algumas edições particularmente emblemáticas — Cañizares em 2012, Castrillón Hoyos em 2013, Burke em 2014, novamente Burke em 2020 e em 2025 — mas registra também bispos, arcebispos, monsenhores e sacerdotes em outros anos.

Logo, o problema de 2026 não é descobrir subitamente que Dom Schneider usa mitra em vez de barrete róseo.

O problema é a sequência.

2025: São Pedro, Altar da Cátedra, cardeal Burke, autorização pontifícia, retorno público de uma celebração que havia sido afastada dali durante três anos.

2026: procissão a São Pedro, oração em São Pedro, saída de São Pedro, Missa em outra basílica.

Não é preciso ser especialista em semiótica para notar que uma porta aberta num ano e fechada no seguinte forma uma frase completa.

Relatos publicados em 9 de setembro afirmam que a autorização para repetir a celebração em São Pedro não foi concedida. O AdVaticanum, citando uma fonte vaticana não identificada e um representante da organização, foi além: informou que a dimensão pública da Missa de 2025 teria sido recebida em certos ambientes romanos como uma espécie de triunfalismo. Os organizadores, por sua vez, manifestaram pesar pela impossibilidade de celebrar em São Pedro e gratidão pela acolhida em Santa Maria Maior.

A informação sobre as motivações internas deve ser tratada pelo que é: relato de fonte jornalística, não decreto afixado na Porta de Bronze.

Mas, se a percepção descrita for verdadeira, temos uma curiosidade eclesiológica deliciosa: a liturgia tradicional pode ser tolerada, desde que sua tolerância não pareça demasiado bem-sucedida.

A tolerância moderna tem esta delicadeza. Gosta muito do tolerado, contanto que ele não encha a igreja, não apareça demais nas fotografias e, sobretudo, não demonstre a inconveniência de continuar vivo.

Talvez por isso a questão da Peregrinatio seja maior do que a troca de duas basílicas. Não se discute se Santa Maria Maior é digna — é magnífica. Não se discute se Schneider é digno — evidentemente é. Discute-se por que uma celebração que em 2025 pôde ocupar o Altar da Cátedra, com um cardeal e com autorização do Papa, volta em 2026 a ser tratada como algo que pode aproximar-se de Pedro, venerar Pedro, rezar diante de Pedro — mas não celebrar diante de Pedro.

A velha liturgia continua recebendo o estranho tratamento reservado às relíquias embaraçosas de família: todos garantem que têm enorme respeito por ela, mas alguém sempre sugere que talvez fique melhor em outro cômodo.

Há ainda uma ironia final. Santa Maria Maior acolherá a Missa tradicional precisamente junto ao lugar escolhido por Francisco para sua sepultura. O rito cuja presença em São Pedro foi restringida durante seu pontificado será celebrado solenemente no altar-mor da basílica onde ele quis repousar.

Roma possui esse talento raro: até quando desloca um símbolo, cria outro.

Mas o fato central permanece muito simples.

Em 2025, a Missa regressou a São Pedro.

Em 2026, a peregrinação regressa.

A Missa, não.

Fontes e referências

Peregrinatio ad Petri Sedem — programa oficial de 2026 e histórico das peregrinações:

https://www.summorum-pontificum.org/

https://pt.summorum-pontificum.org/

Cardeal Raymond Leo Burke — sermão da Peregrinatio 2025:

https://cardinalburke.com/homilies/summorum-pontificum-pilgrimage-sermon-2025/

Catholic World Report / CNA — retorno da Missa tradicional a São Pedro em 2025:

https://www.catholicworldreport.com/2025/10/25/photos-cardinal-burke-celebrates-latin-mass-in-st-peters-basilica/

AdVaticanum — mudança do programa de 2026 e relatos sobre a autorização para São Pedro:

https://advaticanum.com/article/bishop-schneider-to-celebrate-summorum-pontificum-tlm-at-st-mary-major-after-st-peters-permission-denied/

Rorate Cæli — contexto das peregrinações de 2022 a 2025:

https://rorate-caeli.blogspot.com/2025/09/?m=0&version=meter+at+null

Santa Sé — biografia e testamento de Francisco sobre sua sepultura em Santa Maria Maior:

https://www.vatican.va/content/francesco/pt/biography/documents/papa-francesco-biografia-bergoglio.html

https://www.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2025/april/documents/20250421-testamento-francesco.html

Descubra mais sobre Scriptorium Fidei

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo