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Análises

Análise: A escola católica sem catecismo: quando a educação troca a Fé por um humanismo sem rosto

Pero de Sá examina a educação católica, o papel da FTD/Maristas e o risco de substituir catequese e transmissão da fé por um humanismo genérico.
Fotografia histórica de 1918 com crianças em sala de aula da escola católica de Santo Inácio, em Toledo, Ohio, Estados Unidos.

Pero de Sá confronta o congresso de pastoral escolar divulgado pela CNBB com a missão catequética e o papel da FTD/Maristas.

Por Pero de Sá

A escola católica não nasceu para oferecer uma sociologia da boa convivência com um crucifixo na parede. Nasceu da convicção de que a inteligência, a cultura e a vida moral devem ser iluminadas pela verdade de Cristo. A notícia da CNBB sobre o Congresso Internacional de Pastoral Escolar e Universitária no Vaticano, realizado em 22 e 23 de outubro de 2026, obriga a perguntar: quando instituições confessionais falam de esperança, serviço, inclusão e cidadania, ainda apresentam com igual nitidez o Credo, a graça, a Redenção, os sacramentos e a vida eterna?

O congresso, promovido pelo Dicastério para a Cultura e a Educação, reuniu representantes brasileiros, entre eles dom Carlos Lema Garcia, Maria Beatriz Leal e padre João Paulo dos Santos Silva. Sob a expressão “Traçar novos mapas de esperança”, destacou a dignidade humana, a compaixão, a cultura do encontro e o serviço aos pobres. Leão XIV acrescentou o louvor e o desejo de Deus. Nada disso é incompatível com a doutrina. O risco surge quando esse vocabulário, legitimamente cristão, se torna tão indeterminado que deixa de distinguir uma escola católica de qualquer projeto humanitário.

I. O QUE O CONCÍLIO REALMENTE PEDE

Gravissimum educationis, n. 8, ensina que a escola católica deve ordenar a cultura humana à mensagem da salvação. A formação científica e cívica não é negada: é integrada a uma concepção sobrenatural da pessoa. No n. 4, o mesmo Concílio destaca a instrução catequética. Portanto, a exigência de clareza confessional não pode ser descartada como nostalgia de um passado anterior ao Vaticano II.

A instrução A identidade da escola católica para uma cultura do diálogo, de 2022, reforça que Jesus Cristo é o centro da educação católica. Ao falar de diálogo inter-religioso, insiste também que não se constrói diálogo verdadeiro sacrificando a própria identidade. A escola pode acolher estudantes de qualquer crença, sem impor-lhes uma profissão religiosa, e ainda assim ensinar honestamente o que a Igreja crê.

II. O HUMANISMO QUE ESQUECE O FIM ÚLTIMO

Não há erro em ensinar justiça social, solidariedade, cuidado da criação ou respeito à diversidade. Todos são temas passíveis de exame à luz da fé. O desvio acontece quando o objeto sobrenatural da educação é trocado por uma moralidade genérica: a caridade torna-se simples empatia, a conversão apenas crescimento pessoal, a salvação uma fórmula de bem-estar e a religião um conjunto de experiências equivalentes.

O aluno pode aprender sobre projetos sociais e continuar sem saber explicar a Trindade. Pode ser treinado para discutir pluralismo religioso e não conhecer o significado do batismo. Pode participar de atividades de voluntariado e desconhecer os mandamentos, os sacramentos e os Novíssimos. Uma instituição que sistematicamente deixa essas lacunas já não está oferecendo formação católica integral, por mais virtuosas que sejam suas iniciativas sociais.

Não disponho de um levantamento representativo que permita afirmar que a maioria das escolas católicas esteja nessa situação. O diagnóstico de esvaziamento precisa ser comprovado por currículos, materiais didáticos, carga horária religiosa e avaliação do que os estudantes realmente sabem. Mas a possibilidade de diluição é suficientemente séria para exigir esse exame.

III. A FTD E O DILEMA MARISTA

A notícia da CNBB informa que a delegação brasileira foi organizada pela FTD Educação, vinculada à tradição marista. A origem apostólica dos Irmãos Maristas recorda o propósito de educar e evangelizar crianças e jovens. A trajetória da FTD, estudada na pesquisa acadêmica O livro e o selo: editoras católicas no Brasil, mostra a passagem de uma iniciativa religiosa de livros escolares a uma grande empresa editorial.

Essa transformação não constitui, por si só, apostasia. Escolas e editoras precisam pagar salários, investir e manter-se economicamente. O problema é a inversão de prioridades: quando o público consumidor e o crescimento de mercado passam a determinar o que pode ser afirmado sobre a fé, a missão cede ao produto.

O Grupo Marista descreve publicamente sua missão por referências ao Evangelho e à espiritualidade; também fala em clientes, serviços e sustentabilidade. Uma descrição pública da coleção FTD Crescer com alegria e fé indica narrativas bíblicas e abertura à pluralidade religiosa. Esses dados não autorizam concluir que toda a editora tenha abandonado a catequese. Mas colocam uma pergunta legítima: em colégios explicitamente católicos, a pluralidade é ensinada a partir de uma fé claramente professada ou de uma neutralidade que torna Cristo apenas um nome entre tradições?

IV. O LIVRO RELIGIOSO NÃO É NECESSARIAMENTE O CATECISMO

É indispensável distinguir a disciplina escolar de Ensino Religioso, muitas vezes estruturada para a compreensão plural das tradições, da catequese católica dirigida à formação dos batizados. Uma editora pode produzir materiais para ambas as finalidades. O que não é legítimo é usar a primeira modalidade como substituta silenciosa da segunda e anunciar, ao mesmo tempo, uma educação confessional plena.

Conhecer outras religiões com rigor é intelectualmente honesto. Ensinar que todas seriam igualmente verdadeiras em sentido doutrinal seria incompatível com a fé católica. Respeito às pessoas não implica indiferença à verdade. Sem essa distinção, a escola pode converter o diálogo numa sociologia religiosa amorfa.

V. A ESCOLA NÃO É APENAS UM NEGÓCIO

O próprio universo marista já apresentou, em comunicações sobre encontros de redes confessionais, a importância da “sustentabilidade do negócio”. A linguagem pode descrever necessidade administrativa real. Não deve tornar-se o critério supremo de êxito. Matrículas, indicadores, receitas, avaliações comerciais e imagem institucional são meios, não o fim de uma obra educativa católica.

O estudante é pessoa e discípulo em formação, não consumidor cujo gosto decide o conteúdo da verdade. Pais que procuram uma escola confessional têm direito de saber qual doutrina ela oferece, como organiza a formação espiritual e se a identidade anunciada aparece nas aulas, na oração, na vida sacramental e na cultura escolar.

VI. CATEQUESE SEM COERÇÃO, EXCELÊNCIA SEM NEUTRALIZAÇÃO

Não é necessário escolher entre respeito à consciência e ensino inequívoco da fé. Uma instituição pode receber alunos não católicos, promover convivência respeitosa, ensinar ciências com excelência e apresentar a doutrina cristã sem constranger ninguém a professá-la. A liberdade religiosa impede a imposição; não obriga a escola a apagar sua própria identidade.

Também seria falso imaginar que cada disciplina deva converter-se em sermão. A tradição intelectual católica valoriza a autonomia metodológica das ciências. Sua originalidade está em integrar uma ampla formação humana com a pergunta pelo fim último, não em sacrificar a qualidade acadêmica.

VII. NOVOS MAPAS, MAS PARA ONDE?

A retórica dos novos mapas de esperança só ganha força se conservar o norte. O documento conciliar recorda a transmissão da salvação; os documentos posteriores insistem na identidade explicitamente cristológica. A CNBB e os educadores maristas podem servir enormemente à Igreja se transformarem essas exigências em currículo, formação docente e catequese efetiva, e não apenas em fórmulas institucionais.

A avaliação decisiva é simples: ao deixar uma escola católica, o aluno conhece a fé que ela professa? Sabe distinguir caridade teologal de filantropia, graça de emoção, fé cristã de uma religião moral genérica? Se não sabe, a instituição talvez tenha educado um bom cidadão; não realizou por inteiro a obra apostólica que seu nome promete.

Quando a Cruz se torna decoração e o Evangelho se dissolve em valores intercambiáveis, a escola pode conservar seu prestígio e perder sua razão de ser. A missão educativa católica não é só ensinar a viver juntos. É ensinar, com caridade e rigor, para Quem e para que fim vivemos.

English Edition · Read in English

By Pero de Sá

The Catholic school was not founded to offer a sociology of harmonious coexistence with a crucifix on the wall. It was founded on the conviction that intelligence, culture and moral life should be illuminated by Christ's truth. The Brazilian bishops' conference reported on the International Congress on School and University Pastoral Care, held in the Vatican on October 22–23, 2026. The occasion demands a question: when confessional institutions speak of hope, service, inclusion and citizenship, do they also teach clearly the Creed, grace, Redemption, the sacraments and eternal life?

The congress, promoted by the Dicastery for Culture and Education, included Bishop Carlos Lema Garcia, Maria Beatriz Leal and Father João Paulo dos Santos Silva among the Brazilian representatives. The theme of drawing new maps of hope highlighted human dignity, compassion and service to the poor. Leo XIV also spoke of praise and the desire for God. None of these concerns contradicts doctrine. The danger is that Christian vocabulary may become so indeterminate that it no longer distinguishes a Catholic institution from a generic humanitarian programme.

I. WHAT THE COUNCIL REQUIRES

Gravissimum educationis 8 teaches that Catholic education orders human culture toward the message of salvation. The same conciliar declaration places particular importance on catechetical instruction in paragraph 4. The demand for clear Catholic identity is therefore not a rejection of Vatican II.

The 2022 instruction The Identity of the Catholic School for a Culture of Dialogue insists that Jesus Christ remains at the centre of Catholic education. Respectful dialogue with other religions should not require an institution to conceal or sacrifice its identity. A Catholic school may welcome pupils of every belief while clearly teaching what the Church believes, without compelling religious profession.

II. WHEN HUMANISM LOSES ITS SUPERNATURAL END

Justice, solidarity, ecological responsibility and respect for diversity can be legitimate subjects of Christian education. The problem arises when these themes replace, rather than express, revealed truth. Charity is reduced to empathy, conversion to personal growth, salvation to well-being and religion to supposedly interchangeable experiences.

A student may participate in social projects without understanding the Trinity, baptism, grace or the sacraments. If a school systematically neglects those truths, it has not delivered an integral Catholic formation, whatever the merits of its charitable activities.

There is no representative evidence here to establish that most Catholic schools have lost their purpose. That diagnosis needs evidence from curricula, textbooks, instructional hours and student knowledge. It remains a serious question worth investigating, not a proven statistical claim.

III. FTD AND THE MARIST DILEMMA

The CNBB reports that FTD Educação organized the Brazilian delegation. The company is rooted in the Marist tradition, which combined teaching with the evangelization of young people. Academic research describes FTD's historical growth from a religious schoolbook initiative into a major educational publisher.

Growth is not apostasy. Education requires financial resources. Yet a mission becomes distorted if commercial market needs ultimately determine which aspects of the faith may be taught.

The Marist Group publicly refers to Gospel values while also discussing services, clients and sustainability. A description of the FTD collection Crescer com alegria e fé indicates biblical narratives and attention to religious plurality. It would be inaccurate, without examining actual materials across editions, to claim that all FTD books have abandoned catechesis. The pertinent question is whether Catholic schools distinguish a clear profession of faith from an allegedly neutral presentation that treats Christianity as one equivalent tradition among others.

IV. RELIGIOUS STUDIES ARE NOT THE SAME AS CATECHESIS

A pluralistic school subject about religions and Catholic catechesis for baptized pupils are not interchangeable. A publisher may legitimately produce material for each purpose. Yet a Catholic institution cannot silently replace the second with the first while claiming to offer a fully confessional education.

Learning accurately about other religions is valuable. Presenting incompatible doctrines as equally true would conflict with Catholic teaching. Respect for persons does not demand indifference to truth.

V. A SCHOOL IS MORE THAN A BUSINESS

Marist communications about educational-network meetings have referred to business sustainability. This may describe an administrative necessity, but it cannot become the final criterion of success. Enrollment, revenue, market positioning and customer satisfaction are instruments rather than the end of Catholic education.

The pupil is a person called to truth, not a customer whose preferences determine doctrinal content. Families choosing a Catholic school are entitled to clarity about its teaching, spiritual formation and sacramental life.

VI. CATECHESIS WITHOUT COERCION

There is no need to choose between freedom of conscience and faithful Catholic instruction. A school may welcome non-Catholic students, teach science rigorously, encourage respectful coexistence and explain Christian doctrine without compelling anyone to embrace it.

It would also be mistaken to turn mathematics and literature into sermons. Catholic intellectual tradition respects the proper methods of academic disciplines. Its distinctiveness lies in integrating excellent human formation with the ultimate destiny of the person.

VII. NEW MAPS NEED A NORTH STAR

New methods can serve education, but they cannot erase its destination. The Council spoke of the message of salvation and later Church documents insisted on the explicitly Christian identity of Catholic schools. The CNBB and Marist educators could serve the Church greatly by translating this identity into curricula, teacher formation and effective catechesis rather than institutional slogans.

The decisive question is whether a graduate of a Catholic school understands the faith the school professes. Can that student distinguish theological charity from philanthropy, grace from emotion and Catholic doctrine from generic humanitarian morality?

When the Cross becomes decoration and the Gospel dissolves into interchangeable values, an institution may retain its prestige while losing its original reason for existence. Catholic education must teach not only how to live together, but for Whom and toward what final end we live.

Fontes

CNBB, “CNBB participa do Congresso Internacional de Pastoral Escolar e Universitária no Vaticano” (23/10/2026): https://www.cnbb.org.br/cnbb-participa-do-congresso-internacional-de-pastoral-escolar-e-universitaria-no-vaticano/

Concílio Vaticano II, Gravissimum educationis (1965), nn. 2, 4, 8: https://www.vatican.va/content/dam/wss/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_decl_19651028_gravissimum-educationis_po.html

Congregação para a Educação Católica, A identidade da escola católica para uma cultura do diálogo (2022): https://www.vatican.va/content/dam/wss/roman_curia/congregations/ccatheduc/documents/rc_con_ccatheduc_doc_20220125_istruzione-identita-scuola-cattolica_po.html

Congregação para a Educação Católica, Dimensão religiosa da educação na escola católica (1988): https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/ccatheduc/documents/rc_con_ccatheduc_doc_19880407_catholic-school_po.html

Grupo Marista, Educação: https://grupomarista.org.br/educacao/

Grupo Marista, Sobre nós: https://grupomarista.org.br/sobre-nos/

Marista Brasil, Encontro Integra (2025): https://maristabrasil.org/liderancas-do-marista-brasil-participam-de-encontro-com-redes-de-ensino-confessionais-de-todo-o-pais/

“O livro e o selo: editoras católicas no Brasil”, Pro-Posições: https://www.scielo.br/j/pp/a/ZYtc8SfCVyFpprsgKdpZMPr/

Congregação das Irmãs Franciscanas, descrição da coleção FTD Crescer com alegria e fé: https://www.franciscanasdoamparo.org.br/wp-content/uploads/2021/01/projeto_ensino_religioso.pdf

Imagem: Uma escola católica de 1918: a missão de transmitir a fé precisa permanecer reconhecível em qualquer época. — Ilustração editorial do Scriptorium Fidei.

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