Em Puchberg, promotores da sinodalidade europeia transformam uma premissa já aceita em roteiro para 2028 — sem contraditório tradicionalista e com crescente pressão por estruturas de participação, representação e controle da autoridade.
Por Pero de Sá
Há encontros cujo viés se percebe apenas depois de ler as conclusões. O simpósio europeu Shaping Synodality in Europe: From Vision to Roadmap, realizado de 14 a 17 de setembro em Puchberg, perto de Wels, na Áustria, pertence a uma categoria mais cômoda: o viés já estava anunciado no título, na composição da mesa e no objetivo declarado. Não se reuniu a Europa católica para perguntar se o modelo sinodal em curso deve ser aprofundado, limitado, corrigido ou mesmo contido. Reuniu-se um grupo de promotores da sinodalidade para decidir como aprofundá-la e transformá-la em “roteiro” para 2028.
É uma diferença essencial. Um congresso verdadeiramente eclesial poderia ter colocado frente a frente escolas distintas: defensores da colegialidade pós-conciliar, canonistas cautelosos com a erosão da autoridade episcopal, representantes das Igrejas orientais, bispos vinculados a uma compreensão mais clássica do governo eclesiástico e, por que não, tradicionalistas capazes de perguntar se certos mecanismos propostos não importam para a Igreja categorias estranhas à sua constituição. Não foi isso que ocorreu. O encontro partiu de uma premissa já vencida: “a sinodalidade veio para ficar”. A discussão começou depois dessa concessão.
O resultado é intelectualmente previsível. Quando todos os participantes relevantes aceitam a mesma direção de marcha, diferenças de velocidade passam a ser apresentadas como pluralismo. O progressista pede cinquenta quilômetros; o moderado pede vinte; o conservador institucional pede prudência, mas aceita a estrada. Não há, porém, ninguém perguntando se o caminho leva ao destino correto.
O problema não é “escutar”; é quem passa a governar
Boa parte da retórica sinodal é construída com palavras quase irrecusáveis: escuta, participação, transparência, responsabilidade, corresponsabilidade, discernimento. Nenhum católico sério se opõe, em abstrato, a que bispos escutem, que abusos sejam apurados, que leigos sejam consultados ou que o governo eclesiástico exerça prudência. O ponto decisivo começa quando essas virtudes procedimentais deixam de servir à autoridade e passam a redesenhar a autoridade.
A Igreja não é uma democracia parlamentar. E isso não é uma preferência estética de nostálgicos por tiaras, tronos ou tapeçarias. É consequência de sua constituição hierárquica. O poder de ensinar, santificar e governar não nasce de representação eleitoral nem de delegação ascendente de uma base soberana. O Papa não recebe o primado de um congresso de batizados; o bispo não se torna sucessor dos Apóstolos por mandato de um conselho diocesano.
Convém corrigir, aliás, uma expressão corrente. Dizer que a Igreja é “feudal” pode funcionar como imagem polêmica, mas é historicamente e teologicamente impreciso. A questão mais séria é o seu caráter hierárquico e monárquico: monárquico no primado universal do Romano Pontífice; hierárquico na estrutura sacramental do episcopado e do sacerdócio. A Igreja conheceu épocas feudais, concordatas, cortes, principados e diferentes formas temporais de organização. Nada disso constitui sua essência. Já a autoridade apostólica, sim.
É exatamente por isso que a linguagem da “representação”, da “prestação de contas” horizontal, dos “fóruns permanentes”, da “participação nas decisões” e da superação do “medo da democracia” deve ser examinada sem ingenuidade. Isoladamente, cada fórmula admite leitura ortodoxa. Organizadas como sistema permanente de controle e deliberação, porém, podem converter o bispo de pastor dotado de autoridade própria em presidente constitucional de um conselho de interesses; e o Papa, de princípio visível de unidade, em homologador final de consensos produzidos por uma burocracia consultiva transnacional.
Um encontro sem contraditório real
A melhor maneira de entender Puchberg é olhar menos para os slogans e mais para quem os pronunciou. A lista não é composta por uma amostragem equilibrada do catolicismo europeu. Ela se concentra justamente entre protagonistas, teólogos e operadores jurídicos do projeto sinodal.
Jean-Claude Hollerich: o operador de alto nível
Cardeal, jesuíta, ex-relator-geral do Sínodo e vice-presidente do CCEE, Hollerich não é um comentarista periférico. É um dos homens que ajudaram a dar forma e legitimidade ao processo. Sua atuação pública combina prudência institucional com abertura a pautas que, há poucas décadas, seriam tratadas como sinais claros de crise doutrinal: maior participação das mulheres no governo, discussão do diaconato feminino, revisão da abordagem sobre homossexualidade e novas formas de corresponsabilidade.
Hollerich costuma sublinhar que a Igreja não deve simplesmente copiar uma democracia e que o poder eclesial é serviço. A ressalva é correta. O problema é que, na prática, ele permanece entre os principais legitimadores de uma arquitetura que desloca progressivamente o centro de gravidade para processos colegiados, consultas permanentes e instâncias de participação. Não é contraponto ao projeto; é um de seus fiadores.
Ladislav Nemet: quando a analogia democrática deixa de ser metáfora
Nemet é talvez o caso mais revelador porque disse em voz alta aquilo que outros preferem formular tecnicamente: a Igreja deveria superar seu “medo da democracia”. No próprio simpósio, associou à democracia ideias como pluralidade, representação, participação, transparência e responsabilidade. Acrescentou que a Igreja não é democracia em sentido estrito e que nela não vigora simplesmente a regra da maioria. Mas a pergunta permanece: se a gramática escolhida para reformar a autoridade é precisamente a gramática democrática, quanto tempo a distinção formal resistirá à pressão das estruturas?
O problema não está em aprender prudência política com regimes livres. Está em fazer da democracia liberal o espelho normativo pelo qual a Igreja julga suas próprias instituições. A Revelação não precisa receber certificado de legitimidade de Montesquieu, Madison ou do Parlamento Europeu.
Gintaras Grušas: o “conservador” que legitima a moldura
Grušas é frequentemente classificado como mais conservador em matéria moral e mais atento à autoridade episcopal. Essa distinção deve ser reconhecida. Seria intelectualmente desonesto colocá-lo na mesma posição de Zulehner ou Csiszar. Mas também seria ingênuo apresentá-lo como oposição tradicionalista ao encontro. Como presidente do CCEE, deu cobertura formal ao simpósio e aparece como defensor da implementação sinodal, ainda que com maior cautela.
Esse é precisamente o mecanismo pelo qual um processo enviesado adquire aparência de amplitude: inclui-se uma figura moderada que não questiona a premissa central. Grušas pode funcionar como freio de velocidade. Não funciona como mudança de direção.
Myriam Wijlens: a engenheira jurídica
Wijlens é mais importante do que muitos prelados porque atua no ponto em que linguagem pastoral se transforma em mecanismo. Sua produção associa explicitamente sinodalidade e accountability; seu trabalho examina participação de leigos na liderança e governança e procura consequências canônicas para um exercício mais compartilhado da autoridade.
O vocabulário parece administrativo. O efeito pode ser constitucional. Uma vez institucionalizadas instâncias permanentes de consulta, revisão e corresponsabilidade decisória, a pergunta já não é se o bispo “ouve”, mas em que medida pode governar sem obter a chancela dessas instâncias. É nesse ponto que o conselho deixa de aconselhar e começa a condicionar.
Klara-Antonia Csiszar: participação até onde?
Csiszar representa a ala pastoral que não se contenta em mudar procedimentos. Suas intervenções públicas defendem maior participação feminina em funções de governo e decisão e já aventaram formatos como um “sínodo das mulheres” e possibilidades historicamente extraordinárias, como mulheres cardeais. Em Puchberg, falou de transformação da cultura de liderança, capacitação e novas formas de participação.
Não se trata de uma simples correção administrativa. A insistência é cultural: substituir uma concepção recebida de autoridade por outra, construída sobre categorias de igualdade participativa, representatividade e poder compartilhado. A mudança de linguagem precede a mudança de estrutura; a mudança de estrutura prepara a mudança de doutrina vivida.
Christoph Theobald: a teologia que fornece o vocabulário
Theobald oferece densidade teológica ao movimento. Seu pensamento sobre igualdade batismal, desenvolvimento doutrinal, descentralização e participação leiga fornece a gramática com que reformas institucionais podem ser apresentadas não como ruptura, mas como maturação. É uma operação típica de processos eclesiais modernos: primeiro, alarga-se o campo semântico de termos legítimos; depois, novas práticas entram como consequências “naturais” desses termos.
O risco não é que Theobald proponha um parlamento com esse nome. O risco é mais sofisticado: que uma eclesiologia de participação seja desenvolvida até o ponto em que a autoridade sacramental passe a precisar justificar-se perante categorias externas à sua própria natureza.
Tomáš Halík: o prestígio intelectual e o Prêmio Templeton
Halík é apresentado como um dos grandes formadores intelectuais dessa corrente. Antigo dissidente anticomunista, filósofo, sociólogo e sacerdote, recebeu em 2014 o Prêmio Templeton. Aqui é necessário separar crítica séria de rumor. Em certos ambientes tradicionalistas, o Templeton é chamado polemicamente de prêmio da “soft maçonaria”. Não há base documental suficiente para apresentar essa expressão como fato, e seria irresponsável fazê-lo.
Mas não é preciso recorrer a maçonarias invisíveis para discutir o problema. A própria Fundação Templeton descreve seu projeto de forma aberta: diálogo entre ciência, religião e sociedade, busca de novas perspectivas, abertura a múltiplas tradições religiosas e incentivo a concepções de “progresso em religião”. Halík foi premiado justamente por sua atuação de ponte entre crenças, culturas e não crentes. Isso não prova qualquer vínculo maçônico; prova algo mais simples e verificável: seu prestígio internacional está ligado a uma visão de religião dialogal, plural e adaptativa, exatamente o horizonte intelectual que o encontro de Puchberg deseja aprofundar e dos princípios amplamente defendidos pela maçonaria.
Quando Halík interpreta a secularização europeia também como purificação da Igreja de privilégios sociais e oportunidade para uma presença mais dialogal, o problema não é reconhecer dificuldades históricas do catolicismo. É a tendência a transformar a perda de força civilizacional da fé em quase virtude providencial, como se a retirada do cristianismo da esfera pública fosse etapa necessária de uma Igreja mais autêntica.
Paul Zulehner: o programa sem disfarces
Zulehner é o participante que torna inútil qualquer acusação de paranoia tradicionalista. Suas posições são públicas: forte descentralização, crítica da estrutura clerical e abertura explícita à ordenação feminina. Ao comentar o diaconato das mulheres, já afirmou não ver obstáculos teológicos sérios e questionou se apenas abrir o diaconato não perpetuaria uma estrutura masculina nos demais graus da ordem.
Não se está, portanto, diante de uma inocente oficina sobre técnicas de escuta. Entre os formadores intelectuais do processo está um sacerdote-teólogo que deseja mudanças precisamente na estrutura ministerial que o catolicismo recebeu e definiu ao longo de séculos.
Heiner Wilmer: a experiência alemã como laboratório
Wilmer representa a ligação entre o simpósio continental e o Caminho Sinodal alemão. Seus votos foram consistentemente favoráveis a textos reformistas envolvendo celibato, pregação por leigos, bênçãos para casais homossexuais e discussão do diaconato feminino. É difícil imaginar laboratório mais claro para aquilo que a “sinodalidade” pode significar quando deixa de ser método de escuta e se torna plataforma de revisão permanente.
A Alemanha oferece o aviso que Puchberg prefere chamar de experiência. Quando organismos mistos de bispos e leigos se tornam centros de pressão institucional, o episcopado começa a negociar a própria autoridade com estruturas cujo poder cresce exatamente porque não possuem a responsabilidade sacramental do bispo.
Franz Lackner: moderação sem oposição
Lackner merece a mesma distinção feita a Grušas. É mais moderado do que a ala alemã radical, mantém posições pró-vida e não pode ser reduzido honestamente a um progressista de manual. Ainda assim, no contexto de Puchberg, aparece como apoiador do processo e não como crítico de seus pressupostos.
Isso basta para a análise. Um encontro não se torna equilibrado porque inclui moderados que aceitam sua tese fundamental. Para haver contraditório, seria necessário alguém que perguntasse se a institucionalização progressiva da sinodalidade está produzindo uma duplicação da autoridade episcopal. Essa voz, entre as figuras centrais, simplesmente não aparece.
Nathalie Becquart: a ponte com Roma
Becquart é talvez a presença politicamente mais importante porque conecta a experiência europeia ao centro romano. Como subsecretária do Secretariado Geral do Sínodo, tornou-se símbolo da ampliação da participação feminina nos processos decisórios. Ela própria insiste que a Igreja não é uma democracia política. Novamente, a ressalva existe. Mas seu trabalho promove liderança mais horizontal, participação e inclusão como elementos constitutivos da nova cultura sinodal.
Quando uma experiência continental chega a Roma por intermédio de autoridades que já compartilham sua linguagem e seus objetivos, o processo deixa de ser apenas “consulta da periferia”. Torna-se circuito: os organismos romanos incentivam a metodologia; os organismos continentais produzem demandas; essas demandas retornam a Roma como “voz do povo de Deus”; e a convergência produzida pelo próprio método passa a ser apresentada como fruto orgânico de discernimento.
Não há tradicionalista. E os “conservadores” não fazem oposição estrutural
É aqui que o diagnóstico precisa ser preciso. Dizer simplesmente que “não há conservadores” seria exagero, porque Grušas e Lackner podem ser classificados, em diversos temas, como conservadores moderados ou centristas. A afirmação correta é mais grave: não há entre as figuras centrais apresentadas um conservador estrutural do modelo eclesiológico em debate, muito menos um tradicionalista.
Ninguém relevante na mesa parece partir do primado de preservar a estrutura hierárquica contra mecanismos permanentes de democratização. Ninguém representa a crítica tradicional ao pós-concílio. Ninguém pergunta se a linguagem da “igualdade batismal” está sendo usada para obscurecer a diferença ontológica e funcional produzida pelo sacramento da Ordem. Ninguém pergunta se a multiplicação de assembleias, fóruns e conselhos cria uma soberania eclesial paralela.
Em outras palavras: existe diversidade geográfica, nacional, geracional e talvez de temperamento. Não existe verdadeira diversidade de paradigma.
O “parlamento eclesiástico” talvez não venha com esse nome
Seria fácil refutar a crítica dizendo que nenhum documento oficial propõe literalmente transformar a Igreja num parlamento. É verdade. Mas instituições raramente anunciam sua metamorfose com o nome final. O que importa é a função das estruturas.
Se se criam fóruns permanentes representativos; se decisões pastorais relevantes passam a exigir processos de corresponsabilidade; se bispos devem prestar contas a organismos compostos por grupos sem autoridade sacramental equivalente; se a linguagem de representação e democracia passa a servir como critério de legitimidade interna; se a assembleia continental produz “roteiros” para uma assembleia mundial; e se tudo isso se torna permanente, então a analogia parlamentar deixa de ser mera caricatura.
Não se trata necessariamente de substituir o Papa por uma câmara dos comuns com batina. Trata-se de algo mais eficiente: conservar os nomes tradicionais — Papa, bispo, sínodo, discernimento — enquanto se altera gradualmente a maneira pela qual decisões podem ser tomadas sem resistência institucional. O poder formal permanece; o poder real é cercado por procedimentos, expectativas, consultas e mecanismos de pressão.
O modernismo administrativo
São Pio X descreveu o modernismo como fenômeno capaz de penetrar diferentes níveis da vida eclesial precisamente porque não se apresenta sempre como negação frontal. No século XXI, o modernismo pode dispensar muitas das fórmulas filosóficas do início do século XX e assumir roupa administrativa: governance, accountability, participação, escuta, processos, redes, fóruns, facilitação.
Nada disso é herético por si. Esse é o ponto. O perigo reside na arquitetura que tais elementos formam quando todos apontam na mesma direção: a transferência progressiva do critério de legitimidade do sacramento e da missão recebida para o procedimento e o consenso produzido.
A antiga linguagem da Igreja perguntava: quem recebeu de Cristo autoridade para ensinar e governar? A nova linguagem pergunta: quem foi ouvido, quem participou, quem foi representado, quem se sentiu incluído? A primeira pergunta pode degenerar em abuso autoritário quando mal exercida. A segunda pode degenerar em dissolução da autoridade quando transformada em fundamento constitucional.
Pressionar Roma sem dizer “pressão”
O simpósio não precisa aprovar um ultimato ao Papa. Basta produzir um “roteiro europeu”, consolidar redes, criar expectativas, repetir que a sinodalidade é irreversível e chegar a 2028 com um pacote já socialmente legitimado por conferências, universidades, task forces e especialistas. Em seguida, qualquer resistência romana poderá ser descrita não como decisão de governo, mas como bloqueio de um processo do “povo de Deus”.
É assim que a pressão moderna funciona: não ameaça; cria inevitabilidades.
O Papa Leão XIV herdou um mecanismo em movimento. A questão decisiva não é se ele continuará usando a palavra “sinodalidade”, que pode receber leitura ortodoxa e tem raízes reais na tradição conciliar da Igreja. A questão é se permitirá que a palavra seja convertida em senha para uma constituição eclesial progressivamente parlamentarizada.
Conclusão: a Europa que já perdeu o trono quer reformar o altar
Há uma ironia histórica difícil de ignorar. A Europa que secularizou seus Estados, desmontou suas monarquias confessionais, expulsou a religião do centro da vida pública e transformou o cristianismo em opção privada agora oferece à Igreja suas categorias políticas como remédio de modernização.
Depois de ensinar por dois séculos que toda autoridade deve nascer de representação, voto, igualdade formal e controle horizontal, a modernidade olha para a Igreja e se escandaliza porque ela continua afirmando que certa autoridade vem do alto.
Puchberg importa porque não foi uma reunião de rebeldes marginais. Foi muito mais sério: um encontro patrocinado por estruturas episcopais, frequentado por cardeais, bispos, teólogos e operadores do processo oficial, dedicado a transformar uma visão em roteiro. E justamente por isso a ausência de verdadeiro contraditório é tão significativa.
Não se está diante de todos os matizes da Igreja europeia. Está-se diante dos promotores, dos arquitetos, dos moderadores e dos legitimadores de uma mesma direção. Alguns querem correr; outros caminhar; poucos pedem cautela. Quase ninguém pergunta se a Igreja deveria estar indo para lá.
O grande “parlamento eclesiástico” talvez jamais seja inaugurado solenemente. Talvez não tenha hemiciclo, tribuna nem oposição oficial. Talvez chegue aos poucos, sob a forma muito mais católica na aparência de conselhos, assembleias, fóruns, task forces, discernimentos e roteiros.
E quando finalmente todos perceberem que a autoridade já não governa sem negociar com a máquina de participação criada ao seu redor, alguém explicará que nada mudou na doutrina.
Terá mudado apenas a Igreja real.
English Edition · Read in English
By Pero de Sá
Some meetings reveal their bias only after one reads the conclusions. The European symposium Shaping Synodality in Europe: From Vision to Roadmap, held from 14 to 17 September in Puchberg near Wels, Austria, belongs to a more convenient category: the bias was already announced in the title, the composition of the table, and the stated objective. Europe’s Catholics were not gathered to ask whether the current synodal model should be deepened, limited, corrected, or even restrained. A group of promoters of synodality was gathered to decide how to deepen it and turn it into a “roadmap” for 2028.
That distinction is essential. A genuinely ecclesial congress could have placed different schools face to face: defenders of post-conciliar collegiality, canonists wary of the erosion of episcopal authority, representatives of the Eastern Churches, bishops attached to a more classical understanding of ecclesiastical government, and, why not, traditionalists capable of asking whether some proposed mechanisms import into the Church categories alien to her constitution. That did not happen. The meeting began from a premise already conceded: “synodality is here to stay.” The discussion began only after that concession.
The result is intellectually predictable. When all relevant participants accept the same direction of travel, differences of speed are presented as pluralism. The progressive asks for fifty kilometres; the moderate asks for twenty; the institutional conservative asks for caution but accepts the road. No one, however, asks whether the road leads to the right destination.
The problem is not “listening”; it is who comes to govern
Much of the synodal rhetoric is built with almost irresistible words: listening, participation, transparency, responsibility, co-responsibility, discernment. No serious Catholic opposes, in the abstract, bishops listening, abuses being investigated, lay people being consulted, or ecclesiastical government acting prudently. The decisive point begins when these procedural virtues cease to serve authority and begin to redesign authority.
The Church is not a parliamentary democracy. This is not an aesthetic preference of nostalgics for tiaras, thrones, or tapestries. It follows from her hierarchical constitution. The power to teach, sanctify, and govern does not arise from electoral representation or from an ascending delegation by a sovereign base. The Pope does not receive the primacy from a congress of the baptized; a bishop does not become a successor of the Apostles by mandate of a diocesan council.
One common expression should also be corrected. Calling the Church “feudal” may work as a polemical image, but it is historically and theologically imprecise. The more serious question is her hierarchical and monarchical character: monarchical in the universal primacy of the Roman Pontiff; hierarchical in the sacramental structure of the episcopate and priesthood. The Church has known feudal periods, concordats, courts, principalities, and different temporal arrangements. None of these is her essence. Apostolic authority is.
This is why the language of “representation,” horizontal “accountability,” “permanent forums,” “participation in decision-making,” and overcoming the “fear of democracy” must be examined without naïveté. Taken separately, each formula admits an orthodox reading. Organized as a permanent system of control and deliberation, however, they can turn a bishop from a pastor endowed with proper authority into the constitutional chairman of a council of interests; and the Pope, from the visible principle of unity, into the final ratifier of consensuses produced by a transnational consultative bureaucracy.
A meeting without a real counter-voice
The best way to understand Puchberg is to look less at the slogans and more at those who uttered them. The list is not a balanced sample of European Catholicism. It is concentrated precisely among protagonists, theologians, and legal operators of the synodal project.
Jean-Claude Hollerich: the high-level operator
A cardinal, Jesuit, former General Relator of the Synod and Vice-President of the CCEE, Hollerich is not a peripheral commentator. He is one of the men who helped give shape and legitimacy to the process. His public work combines institutional caution with openness to questions that only a few decades ago would have been treated as clear signs of doctrinal crisis: greater participation of women in governance, discussion of the female diaconate, revision of the approach to homosexuality, and new forms of lay co-responsibility.
Hollerich often stresses that the Church should not simply copy a democracy and that ecclesial power is service. The qualification is correct. The problem is that in practice he remains among the principal legitimators of an architecture that progressively shifts the centre of gravity toward collegial processes, permanent consultation, and structures of participation. He is not a counterweight to the project; he is one of its guarantors.
Ladislav Nemet: when the democratic analogy ceases to be a metaphor
Nemet is perhaps the most revealing case because he said aloud what others prefer to formulate technically: the Church should overcome its “fear of democracy.” At the symposium itself he associated democracy with plurality, representation, participation, transparency, and responsibility. He added that the Church is not a democracy in the strict sense and that simple majority rule does not apply. Yet the question remains: if the grammar chosen to reform authority is precisely democratic grammar, how long will the formal distinction withstand the pressure of structures?
The problem is not learning political prudence from free regimes. It is making liberal democracy the normative mirror by which the Church judges her own institutions. Revelation does not need a certificate of legitimacy from Montesquieu, Madison, or the European Parliament.
Gintaras Grušas: the “conservative” who legitimizes the frame
Grušas is often classified as more conservative in moral matters and more attentive to episcopal authority. That distinction should be acknowledged. It would be intellectually dishonest to place him in the same position as Zulehner or Csiszar. But it would be equally naïve to present him as a traditionalist opposition to the meeting. As president of the CCEE, he gave the symposium formal cover and appears as a defender of synodal implementation, albeit with greater caution.
This is precisely how a biased process acquires the appearance of breadth: a moderate figure is included who does not challenge the central premise. Grušas may function as a brake on speed. He does not function as a change of direction.
Myriam Wijlens: the legal engineer
Wijlens is more important than many prelates because she works at the point where pastoral language becomes mechanism. Her scholarship explicitly links synodality and accountability; her work examines lay participation in leadership and governance and seeks canonical consequences for a more shared exercise of authority.
The vocabulary sounds administrative. The effect may be constitutional. Once permanent structures of consultation, review, and co-responsible decision-making are institutionalized, the question is no longer whether the bishop “listens,” but to what extent he can govern without the endorsement of such bodies. At that point the council ceases merely to advise and begins to condition.
Klara-Antonia Csiszar: participation—how far?
Csiszar represents the pastoral wing that is not content with changing procedures. Her public interventions defend greater female participation in governance and decision-making and have raised formats such as a “women’s synod” and historically extraordinary possibilities such as women cardinals. At Puchberg she spoke of transforming leadership culture, empowerment, and new forms of participation.
This is not a simple administrative correction. The insistence is cultural: replace a received conception of authority with another built upon categories of participatory equality, representation, and shared power. A change of language precedes a change of structure; a change of structure prepares a change of lived doctrine.
Christoph Theobald: theology supplies the vocabulary
Theobald gives theological density to the movement. His thought on baptismal equality, doctrinal development, decentralization, and lay participation provides the grammar by which institutional reforms can be presented not as rupture but as maturation. This is a typical operation of modern ecclesial processes: first, the semantic field of legitimate terms is widened; then new practices enter as “natural” consequences of those terms.
The risk is not that Theobald proposes a parliament under that name. The risk is subtler: that an ecclesiology of participation develops to the point where sacramental authority must justify itself before categories external to its own nature.
Tomáš Halík: intellectual prestige and the Templeton Prize
Halík is presented as one of the principal intellectual formers of this current. A former anti-communist dissident, philosopher, sociologist, and priest, he received the Templeton Prize in 2014. Here serious criticism must be separated from rumour. In some traditionalist circles, the Templeton Prize is polemically described as an award of “soft Freemasonry.” There is not sufficient documentary basis to present that expression as fact, and doing so would be irresponsible.
But there is no need to invoke invisible lodges to discuss the issue. The Templeton Foundation openly describes its own project: dialogue among science, religion, and society, the search for new perspectives, engagement with multiple religious traditions, and encouragement of ideas of “progress in religion.” Halík was rewarded precisely for building bridges among beliefs, cultures, and non-believers. This proves no Masonic link; it proves something simpler and verifiable: his international prestige is tied to a dialogical, plural, and adaptive vision of religion, exactly the intellectual horizon that Puchberg seeks to deepen.
When Halík interprets European secularization also as a purification of the Church from social privileges and an opportunity for a more dialogical presence, the problem is not the acknowledgment of historical Catholic sins. It is the tendency to turn the loss of the faith’s civilizational strength into an almost providential virtue, as though Christianity’s withdrawal from public life were a necessary stage toward a more authentic Church.
Paul Zulehner: the programme without camouflage
Zulehner is the participant who makes accusations of traditionalist paranoia unnecessary. His positions are public: strong decentralization, criticism of clerical structures, and explicit openness to female ordination. Commenting on the female diaconate, he has said that he sees no serious theological obstacles and has questioned whether merely opening the diaconate would perpetuate a male structure in the higher degrees of Holy Orders.
This is therefore not an innocent workshop about listening techniques. Among the intellectual formers of the process is a priest-theologian who desires changes precisely in the ministerial structure Catholicism has received and defined over centuries.
Heiner Wilmer: the German experience as laboratory
Wilmer represents the link between the continental symposium and the German Synodal Way. His votes were consistently favourable to reformist texts involving celibacy, preaching by lay people, blessings for same-sex couples, and discussion of the female diaconate. It is difficult to imagine a clearer laboratory for what “synodality” can mean when it ceases to be a listening method and becomes a platform of permanent revision.
Germany offers the warning Puchberg prefers to call an experience. When mixed bodies of bishops and laity become centres of institutional pressure, the episcopate begins negotiating its own authority with structures whose power grows precisely because they do not bear the bishop’s sacramental responsibility.
Franz Lackner: moderation without opposition
Lackner deserves the same distinction made for Grušas. He is more moderate than the radical German wing, retains pro-life positions, and cannot honestly be reduced to a textbook progressive. Yet in the context of Puchberg he appears as a supporter of the process rather than a critic of its assumptions.
That is enough for the analysis. A meeting does not become balanced because it includes moderates who accept its fundamental thesis. A real counter-voice would require someone asking whether the progressive institutionalization of synodality is producing a duplication of episcopal authority. That voice, among the central figures, simply does not appear.
Nathalie Becquart: the bridge to Rome
Becquart is perhaps the most politically important presence because she connects the European experience to the Roman centre. As Under-Secretary of the General Secretariat of the Synod, she has become a symbol of expanded female participation in decision-making. She herself insists that the Church is not a political democracy. Again, the qualification exists. But her work promotes more horizontal leadership, participation, and inclusion as constituent elements of the new synodal culture.
When a continental experience reaches Rome through authorities who already share its language and objectives, the process ceases to be merely “consultation from the periphery.” It becomes a circuit: Roman organs encourage the methodology; continental organs produce demands; those demands return to Rome as the “voice of the People of God”; and convergence produced by the method itself is then presented as the organic fruit of discernment.
There is no traditionalist. And the “conservatives” offer no structural opposition
This is where diagnosis must be exact. To say simply that “there are no conservatives” would be an exaggeration, because Grušas and Lackner can, on various issues, be classified as moderate conservatives or centrists. The more serious and accurate statement is this: among the central figures presented, there is no structural conservative of the ecclesiological model under debate, much less a traditionalist.
No relevant figure at the table appears to begin from the primacy of preserving the hierarchical structure against permanent mechanisms of democratization. No one represents the traditional critique of the post-conciliar settlement. No one asks whether the language of “baptismal equality” is being used to obscure the ontological and functional difference produced by Holy Orders. No one asks whether multiplying assemblies, forums, and councils creates a parallel ecclesial sovereignty.
In other words, there is geographical, national, generational, and perhaps temperamental diversity. There is no true diversity of paradigm.
The “ecclesiastical parliament” may never bear that name
It would be easy to refute the criticism by saying that no official document literally proposes turning the Church into a parliament. That is true. Institutions, however, rarely announce their metamorphosis under its final name. What matters is the function of structures.
If permanent representative forums are created; if important pastoral decisions increasingly require co-responsible processes; if bishops are expected to answer to bodies composed of groups without equivalent sacramental authority; if the language of representation and democracy begins serving as a criterion of internal legitimacy; if a continental assembly produces “roadmaps” for a global assembly; and if all of this becomes permanent, then the parliamentary analogy ceases to be mere caricature.
The issue is not necessarily replacing the Pope with a house of commons in cassocks. It is something more efficient: preserve the traditional names—Pope, bishop, synod, discernment—while gradually altering the way decisions can be made without institutional resistance. Formal power remains; real power is surrounded by procedures, expectations, consultations, and mechanisms of pressure.
Administrative modernism
Saint Pius X described modernism as a phenomenon capable of penetrating different levels of ecclesial life precisely because it does not always appear as frontal denial. In the twenty-first century modernism can dispense with much of the philosophical vocabulary of the early twentieth century and wear administrative clothing: governance, accountability, participation, listening, processes, networks, forums, facilitation.
None of these is heretical in itself. That is the point. The danger lies in the architecture they form when all point in the same direction: the progressive transfer of the criterion of legitimacy from sacrament and received mission to procedure and manufactured consensus.
The older language of the Church asked: who received from Christ the authority to teach and govern? The new language asks: who was heard, who participated, who was represented, who felt included? The first question can degenerate into authoritarian abuse when badly exercised. The second can degenerate into dissolution of authority when turned into a constitutional foundation.
Pressuring Rome without saying “pressure”
The symposium need not approve an ultimatum to the Pope. It is enough to produce a “European roadmap,” consolidate networks, create expectations, repeat that synodality is irreversible, and arrive in 2028 with a package already socially legitimized by conferences, universities, task forces, and experts. Any subsequent Roman resistance can then be described not as an act of government but as obstruction of a process of the “People of God.”
This is how modern pressure works: it does not threaten; it creates inevitabilities.
Pope Leo XIV inherited a mechanism already in motion. The decisive question is not whether he will continue to use the word “synodality,” which can receive an orthodox reading and has real roots in the conciliar tradition of the Church. The question is whether he will allow that word to become the password for a progressively parliamentarized ecclesial constitution.
Conclusion: the Europe that already lost the throne now wants to reform the altar
There is a historical irony difficult to ignore. The Europe that secularized its states, dismantled its confessional monarchies, expelled religion from the centre of public life, and turned Christianity into a private option now offers the Church its political categories as a remedy for modernization.
After two centuries of teaching that every authority must arise from representation, voting, formal equality, and horizontal control, modernity looks at the Church and is scandalized because she continues to affirm that a certain authority comes from above.
Puchberg matters because it was not a gathering of marginal rebels. It was far more serious: a meeting sponsored by episcopal structures, attended by cardinals, bishops, theologians, and operators of the official process, dedicated to turning a vision into a roadmap. And for that very reason the absence of a real counter-voice is so significant.
We are not looking at every shade of the European Church. We are looking at the promoters, architects, moderators, and legitimators of the same direction. Some want to run; others to walk; a few ask for caution. Almost no one asks whether the Church should be going there at all.
The great “ecclesiastical parliament” may never be solemnly inaugurated. It may have no hemicycle, tribune, or official opposition. It may arrive gradually, in the much more Catholic-looking form of councils, assemblies, forums, task forces, discernments, and roadmaps.
And when everyone finally realizes that authority can no longer govern without negotiating with the participation machine built around it, someone will explain that nothing changed in doctrine.
Only the real Church will have changed.
Fontes
Instituto Humanitas Unisinos / National Catholic Reporter — “Os defensores da sinodalidade na Europa apresentam ideias para a Assembleia Eclesial de 2028 em Roma”, 6 out. 2026.
Katholische Privat-Universität Linz — “Shaping Synodality in Europe: From Vision to Roadmap”, programa oficial do simpósio, 14–17 set. 2026.
Vatican News — “European Synodality Conference discusses baptism, listening and leadership”, 17 set. 2026.
Katholisch.at — “Kardinal Nemet: Kirche sollte Angst vor Demokratie ablegen”, 17 set. 2026.
Vatican News — entrevistas e declarações do cardeal Jean-Claude Hollerich sobre sinodalidade, participação das mulheres e ministério ordenado.
Myriam Wijlens — “Synodality Implies Accountability. Accountability Requires a Synodal Church”, Studia Canonica, v. 56, n. 2, 2022.
Instituto Humanitas Unisinos — entrevista com Paul M. Zulehner sobre sinodalidade, descentralização e ordenação feminina.
Der Dom / KNA — balanço das votações de Heiner Wilmer no Caminho Sinodal alemão, 25 fev. 2026.
Templeton Prize — perfil oficial de Tomáš Halík, laureado de 2014.
John Templeton Foundation — descrição institucional, missão e áreas de atuação. Não foi localizada base documental idônea para tratar como fato a alegação de vínculo maçônico do prêmio.
Código de Direito Canônico — cânones 331–336, sobre o Romano Pontífice e o Colégio dos Bispos.
Concílio Vaticano I — Pastor Aeternus; Leão XIII — Satis Cognitum; São Pio X — Pascendi Dominici Gregis.
Imagem: Sinodalidade europeia e a disputa sobre autoridade, participação e governo eclesiástico. — Ilustração editorial do Scriptorium Fidei.


